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Crise dos fertilizantes: como a guerra na Ucrânia afeta o agro

Com a crise dos fertilizantes, devido a guerra entre Rússia e Ucrânia, Brasil busca alternativas para suprir as demandas; principal preocupação é com o potássio

Mário Bittencourt Mário Bittencourt
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Fertilizantes importados no Porto do Paraná em 2021
Foto: Claudio Neves/Governo do Paraná

A crise dos fertilizantes, que já afetava o agronegócio brasileiro há pelo menos um ano, com aumento de até 200% nos preços, tem trazido grandes preocupações para o setor no país.

Isso porque o Brasil possui uma grande dependência desses insumos: importa 85% do que utiliza, sendo que a Rússia responde por 23% das importações brasileiras.

Apesar da previsão de agravamento na crise, há perspectivas positivas para a obtenção dos fertilizantes russos, devido à posição neutra do Brasil perante a guerra na Ucrânia.

Mas, de qualquer forma, a alta dos preços desses insumos deve continuar em escalada, conforme você verá com mais detalhes neste artigo.

Boa leitura!

Por que o Brasil importa muitos fertilizantes?

O Brasil é uma potência agrícola mundial: lidera a produção e exportação de soja, açúcar, café e suco de laranja, e ainda compete no mercado global de milho, algodão e carnes.

O país vive situação bem diferente de há 50 anos, quando era importador de alimentos.

O cenário se reverteu graças às técnicas inovadoras, como o plantio direto e a rotação de culturas, além de tecnologias que permitiram o país produzir até três safras por ano.

Estudos da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) mostram que entre 1975 e 2017 a produção de grãos cresceu seis vezes: saltou de 38 milhões de toneladas para 236 milhões de toneladas, enquanto a área plantada apenas dobrou.

Gráfico mostra aumento da produtividade em relação a area platanda no Brasil

Dados mostram evolução da produtividade de grãos agrícola brasileira e da área plantada (Fonte: Embrapa)

Esse crescimento também se deve ao uso intensivo de fertilizantes, o que contribuiu em muito para o aumento da produtividade, sobretudo em áreas de solo pobre em nutrientes, como os do Cerrado, onde ocorreu a maior parte da expansão das áreas de grãos.

Segundo a Embrapa, “o uso de fertilizantes se tornou um elemento-chave, mas gerou também um problema para o país: a dependência de importações”.

Em 2021, o Brasil importou 41,6 milhões de toneladas de fertilizantes, sendo 9,3 milhões de toneladas oriundas da Rússia, segundo o Rabobank.

As lavouras que mais consomem fertilizantes no país são as de soja (40%), milho (17%), cana (12%), café (5%) e algodão (4%). Os 22% são destinados às outras culturas.

Dos fertilizantes, o cloreto de potássio (K) responde por um terço das importações brasileiras, e é um dos principais nutrientes das plantas, ao lado do fósforo (P) e do nitrogênio (N). Juntos, eles formam a sigla NPK, base da formulação dos adubos.

Por que o mercado interno brasileiro não supre a demanda por fertilizantes?

Apesar de existir no Brasil uma grande demanda por fertilizantes, o país nunca conseguiu estabelecer um mercado interno capaz de atender à demanda dos agricultores.

A produção de fertilizantes do país atende a apenas 15% do que se consome, uma situação que faz o Brasil ser o quarto maior importador de fertilizantes no mundo.

O Governo Federal, por meio da Petrobras, já teve três unidades de produção de fertilizantes nitrogenados, mas alegou prejuízos milionários e acabou privatizando-as.

Por isso, o Brasil segue dependente da importação desses insumos, o que ainda deve perdurar por muito tempo, enquanto se busca alternativas para redução dessa dependência.

Ano passado, o Governo Federal criou o Grupo de Trabalho Interministerial para elaboração do Plano Nacional de Fertilizantes, com a intenção de tornar o país autossuficiente.

Mas, caso dê tudo certo, isso só deve ocorrer daqui a 20 anos, quando espera-se reduzir a dependência das importações em até 85% da demanda total.

Vai faltar fertilizante no Brasil?

Como o problema interno, da falta de capacidade de atender a própria demanda, não é algo fácil de resolver, o mais certo a fazer é buscar meios de evitar a falta de fertilizantes.

De acordo com a Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos), os estoques que há no Brasil dão para atender apenas a demanda dos próximos três meses.

No contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia, o Brasil tem agido com cautela, numa posição considerada neutra, apesar de votar a favor da resolução da ONU (Organização das Nações Unidas) condenando a guerra.

O Brasil não impôs nenhuma sanção à Rússia, e esse posicionamento, ao que tudo indica, é o que pode garantir a continuidade do fornecimento de fertilizantes para o país por parte dos russos.

Segundo o Ministério da Agricultura, apesar das limitações, sobretudo com transporte e transações financeiras internacionais, por conta da guerra, a Rússia não suspendeu o envio do produto ao Brasil.

A Rússia é o segundo maior fornecedor de cloreto de potássio do Brasil – o primeiro é o Canadá, com 33% das importações do país, que ainda importa fertilizantes de vários tipos da China e do Marrocos.

No Canadá, no porto de Vancouver, referência de preço dos fertilizantes, a tonelada do cloreto de potássio estava em US$ 279 em maio de 2021 e passou para US$ 680 em dezembro. Agora já está em mais de US$ 700.

Há quem diga que a guerra será “catastrófica para a alimentação global”, por conta da falta de fertilizantes. No Brasil, há relatos de escassez geral de insumos em Santa Catarina, o que ocasionará aumento do custo dos alimentos.

Alternativas de fertilizantes no Brasil

Dentre essas alternativas, estão a ampliação do uso de insumos orgânicos e biológicos, que já possuem grande desenvolvimento no país, que pode aproveitar a crise para desenvolver uma agricultura mais sustentável.

Outra opção que se busca, diante da crise, é o uso do pó de rocha, que atua como remineralizador do solo.

A Embrapa realiza estudos diversos sobre a eficiência do pó de rocha em culturas como soja e milho, mas ainda não há conclusões acerca de recomendações de uso, já que os teores de nutrientes do insumo variam de acordo com o tipo de rocha.

Parte do setor privado tem se movimentado no sentido de conseguir uma fatia de mercado interno com a crise dos fertilizantes.

Em Minas Gerais, por exemplo, a Verde Agritech quer elevar sua produção de potássio para 3 milhões de toneladas por ano.

No Brasil já são realizadas práticas agrícolas que contribuem para a redução da dependência de alguns nutrientes, como é o caso do nitrogênio.

Tais práticas são baseadas na FBN (Fixação Biológica de Nitrogênio), que, segundo a Embrapa, está presente hoje em 75% da área cultivada com soja no país.

Por meio dessa técnica, é possível fixar nas raízes das plantas o nitrogênio disponível no ar. A técnica utiliza bactérias e outros microorganismos para atingir sua finalidade.

A utilização da FBN em plantações de soja gera economia de R$ 2 bilhões por ano em compra de fertilizantes nitrogenados, além de reduzir o consumo de energia e das emissões de gases de efeito estufa.

Conclusão

A guerra entre Rússia e Ucrânia, para muito além da crise de fertilizantes, é uma crise humanitária com consequências que somente a história poderá, mais a frente, relatar.

Parte dessas consequências já estamos vendo ocorrer, com as sanções de ambos os lados da guerra e seus apoiadores – nesse quesito, o Brasil tem ficado de fora.

Manter a neutralidade diante do conflito, devido aos interesses comerciais, com os fertilizantes em primeiro na fila de prioridades, demonstra ser uma estratégia lógica.

Porém, com guerra ou não, os preços dos fertilizantes já vinham subindo e com ela vão subir mais ainda. O momento é de refazer as contas da fazenda e torcer para o fim da guerra.

Mário Bittencourt Mário Bittencourt
Jornalista, especializado no setor do agronegócio e pós-graduado em Agricultura de Precisão.
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